Mudar não é fácil

Mudar é Fácil? – O Grande Problema da Autoajuda

Queres já a verdade? A dura realidade é que estás sozinho e a responsabilidade de fazer com que a tua vida funcione é só tua!

Eu não sou nenhuma Guru nem life coach, e como tu, estou a aprender e a tentar deslindar esse grande mistério que é a mudança. E para ser sincera, acho que grande parte da autoajuda que se vende por aí é um disparate. 

Normalmente são palavras e frases bonitas em posts do Facebook e Instagram que muita gente partilha, mas que na realidade não pratica no seu dia a dia, ou são livros com títulos arrebatadores que quem leu um ou dois já leu todos, porque afinal dizem todos a mesma coisa, só que de formas diferentes.

A dura realidade é que a mudança NÃO é pera doce. Nem por lá caminha. Mudar custa e dói muito. É uma tarefa longa e solitária. Está cheia de coisas desconhecidas que não te são familiares. 

É um verdadeiro pontapé no rabo! É por isso que muito poucas pessoas mudam realmente. Porque é muuuuuito difícil!

A mudança não é fácil e nem é simples

Contrariamente ao que te dizem, a mudança não é fácil e simples. A mudança é o que te leva a olhar de frente para os sentimentos profundos que evitas. Sabes aquelas emoções manhosas que surgem de repente e que tentas evitar a todo o custo? Pois, aquelas das quais te distrais para não sentir. 

Ironicamente, é o evitar esses sentimentos e emoções desconfortáveis que faz com que te sintas bem. E como te sentes bem, repetes tudo o que tens vindo a fazer e continuas a evitar esses sentimentos.

Os Gurus da Autoajuda

Alguns desses autoproclamados gurus da autoajuda fazem com que tudo pareça muito fácil. 

E então tu enches-te de força de vontade, tomas uma decisão e tentas seguir aqueles programas passo-a-passo que são muito fáceis e simples … e falhas!

E depois, sentes-te culpado e envergonhado: não consegues, és um falhanço, achas que os outros conseguem e tu não, sentes que não prestas, que como não consegues mudar não és merecedor de coisas melhores, que não és bom o suficiente, que não és inteligente o suficiente e que não és capaz. 

E isto tudo porque, supostamente é fácil!

E então perguntas-te, se é tão fácil, porque é que não consegues?

Bem, porque afinal, não é mesmo nada fácil.

Porque é que tentaste e falhaste? Porque as pessoas que procuras para te ajudar e orientar estão cheias de conselhos fantásticos e ideias, e vendem-te uma coisa que eles próprios não compravam. 

E não te dizem a verdade, não te explicam que a mudança é um trabalho duro e contínuo. Também não te dizem que só tu és o grande responsável pela tua vida, e nunca te vão dizer, porque assim não te conseguem vender nada!

Raramente te admitem que a mudança pessoal é um caminho duro e solitário e vendem-te programas de passo a passo que nunca vão resultar.

Porque não consegues mudar?

Para conseguires mudar, tens que entender o que se passa: quais são os teus medos, o que é que te está a travar ou impedir de crescer, quais são os pensamentos recorrentes que tens todos os dias e que emoções e sentimentos é que esses pensamentos trazem à superfície.

Muitas vezes nós não mudamos porque isso implica deixar algumas pessoas da nossa vida para trás, ou ter que deixar um emprego, ou simplesmente ter que abandonar o medo da opinião dos outros, e tudo isso parece muito fácil quando o teu guru que não te conhece e não sabe nada da tua realidade diz que sim, que é simples, basta que tenhas vontade e sigas o programa.

Mas esses programas de passo a passo não contemplam os teus três filhos pequenos, ou a tua mãe doente, ou até um marido ou esposa que não lhe apetece viver com uma pessoa diferente de ti, aquela pessoa que és e que conhecem.

Porque tens uma família com hábitos e tradições que não vais mudar, ou não queres mudar, ou achas que não podes mudar.

E a derradeira questão – até onde estás disposto a ir para mudar? E o teu ego, o teu eu que conheces? Vais abandonar?

Ensinam-te que tens que te aceitar como és, aceitar o teu eu e que és merecedor só porque existes e depois dizem-te que tens que mudar… Já pensaste nisso?

Tens que mudar porquê? Tens alguma coisa em ti que está mal? Também já pensaste nisso? 

O mercado da autoajuda aprendeu muito com a indústria da perda de peso. Perde 20 ou 30 kg sem dieta e sem exercício tornou-se a nova regra e foi facilmente adaptado para: “Muda a tua vida sem teres que fazer nada!”

Basta que te sintas positivo, por muito que isso te custe face às tuas circunstâncias, que envies pensamentos para o universo e que aguardes, e como magia, um dia acordas e a tua vida alterou-se radicalmente. Hum, parece que não é bem assim! Enganaram-te!

Não há nada de confortável na mudança. Enquanto tens muitas razões para mudar, também tens muitas e boas razões para não o fazer. O teu cérebro está programado para uma vida previsível e o caminho para a mudança não é previsível.

A mudança é um monstro. É solitária. E dá-te um valente tabefe na cara com a dura realidade de que ninguém além de ti é responsável pela tua vida.

A solução? Não mudes!

Começa por abandonar já hoje essa ideia de que tens que mudar!

A não ser que sejas um psicopata furioso ou que estejas debaixo de uma depressão profunda, podes olhar para ti e perguntar – Será que tenho alguma coisa de tão errada ou que esteja tão mal em mim?

Provavelmente não!

És antissocial? E então? Nem todos temos paciência para conversas de circunstância ou para estar com pessoas que não nos dizem nada. Preferes ler em vez de sair? Óptimo, tens horizontes vastos e uma mente mais aberta.

Não gostas de desporto? Não é nenhum pecado, escolhe uma actividade que não te canse muito, não gaste muito tempo e te dê prazer, se não conheces vai experimentar algumas: fazer yoga, qi gong terapêutico ou marcial, dançar, canoagem, andar de bicicleta ou algo do género, se não experimentares nunca vais saber.

A única coisa que te limita é a tua imaginação e a crítica, tanto dos outros como tua, essencialmente a tua.

Aceita as tuas características

E se em vez de te criticares e acusares, começasses a aceitar as tuas características e a jogar com elas de forma a melhorá-las?

A isso não se chama mudar mas sim aperfeiçoar! 

Sentes que tens raiva ou outra emoções acumuladas e não queres? 

Toda a gente tem raiva, tristeza, medo, preocupação, ansiedade e essas coisas todas, elas fazem parte da natureza do ser humano.

E que outros grandes defeitos é que tens? Preguiça? Procura actividades que gostes e começa devagar, sem mudanças drásticas e vai-te aperfeiçoando nessa nova actividade que escolheste.

Não gostas de pessoas? E que tal uma vez por outra lançares assim um sorriso maluco para alguém que encontras na rua? O que é que vai acontecer? Tens duas hipóteses, a pessoa lança-te um ar enfurecido e ok, tens razão para não gostar de pessoas, ou a pessoa devolve-te um sorriso de volta… o que é que vais sentir? Acredita, vais sentir-te bem!

Aperfeiçoa-te e educa as tuas emoções

A questão é, não tentes mudar, em vez disso procura aperfeiçoar-te todos os dias um bocadinho, tenta melhorar a tua pessoa de forma a que os teus momentos e dias sejam mais frutíferos, para que sejas mais feliz.

Todos temos traços que gostamos e que não gostamos, controla o que não gostas e foca-te no que gostas ou então inventa. Se há uma característica que gostavas de ter, faz de conta que tens: se és tímido, tenta falar com alguém que não conheces, por mais que não seja, dá os bons dias.

Se te consideras uma pessoa pouco simpática, começa a distribuir sorrisos ou dá passagem numa entrada, ou até podes oferecer o teu lugar nos transportes públicos, pode custar a princípio mas depois vais ver que não custa nada e sabe-te bem.

Lembra-te que todas as pessoas têm as suas lutas, a vida magoa todos. Se não tens paciência ou se aquela pessoa te irrita, pensa que também ela está a lutar com alguma coisa, talvez seja insegura e precise da tua aprovação, ou talvez pareça arrogante e isso só significa que a pessoa se defende muito porque provavelmente a vida dela não foi nada fácil… nós não sabemos, nunca sabemos.

Nós só sabemos o que se passa em nós e isso devemos observar com atenção.

Confúcio e as emoções

Sabes qual foi a principal pergunta do grande filósofo Chinês Confúcio?

Não foi qual é o significado da vida ou porque é que estamos cá ou qual o propósito de vida, a sua pergunta foi:

“ Como é que estás a viver a tua vida no dia a dia?”

Nas palavras de Confúcio, o que governa a nossa vida diária são as nossas emoções.

Todos os seres vivos têm predisposição para fazer as coisas de uma certa maneira: os girassóis rodam seguindo o sol, as borboletas e as abelhas procuram as flores e os seres humanos reagem emocionalmente às outras pessoas.

A verdade é esta, tu tens emoções e são essas que tens que aprender a gerir, em vez de mudar e criar grandes alterações difíceis na tua vida, aprende a gerir as tuas emoções.

Como gerir as emoções?

Há quem faça retiros e meditação, é viável mas não é suficiente. Num retiro ou no teu momento de meditação estás em tranquilidade, não tens que lidar com os outros e os seus humores e nem com as contrariedades da vida, mas no dia a dia, nos momentos que passas a trabalhar, nas compras, nos transportes e em todas as interações com pessoas, é aí que aprendes e que te aperfeiçoas.

Aprende-se praticando e repetindo.

É quando estás parado no trânsito, que decides gerir essa raiva imensa que surge, quando vês aqueles dois paspalhões que deram um toque que não fez nem um risco no pára choques, mas que estão ali no meio da via a atrasar toda a gente…

As nossas emoções estão sempre ativas e os nossos sentimentos vão surgindo de acordo com essas emoções.

Se encontramos algo ou alguém que gostamos sentimo-nos bem, se surge uma contrariedade ficamos com raiva ou frustrados, se vemos algo que nos assusta sentimos medo, sentimos ciúme se alguém se insinua ao nosso parceiro, rivalidade com o colega que apresentou o trabalho antes de nós, desespero se a nossa relação é envenenada, tristeza se um amigo nos desiludiu…

E se prestarmos atenção, algumas emoções surgem mais que outras, essas emoções tornaram-se um hábito, um padrão que se repete quase sempre.

É aqui que mais uma vez entra o aperfeiçoamento e não a mudança.

As emoções criam a vida, nos variados momentos em que encontramos outras pessoas, reagimos de maneiras infinitamente diferentes. São essas emoções que expressam a nossa humanidade e aperfeiçoar não é deixar de sentir ou controlar mas, em vez disso, aprender a gerir ou a educá-las de forma a reagirmos melhor aos outros. 

Por exemplo, quando nos sentimos em baixo ligar a uma amiga para lhe perguntar como ela está, ou oferecer-lhe algum conforto deixando de lado o nosso estado de espírito e dedicando-lhe um momento, vai afastar-nos do sentimento negativo que estávamos a ter e é um pequeno passo para o aperfeiçoamento e para criar um novo padrão.

No tal acidente de carro que falei acima, também podemos aproveitar para praticar. Não nos focarmos nas emoções dos dois condutores nem na nossa raiva e sim, aproveitar o momento para ser mais construtivo e programar ou rever os planos do dia. Esta é mais uma oportunidade para educar aquela ira que teima em surgir e ajudar o cérebro a perceber que existem outras formas de reagir, além das que estamos habituados.

Tenta não entrar pelo mundo da mudança e da transformação radical, vai-te educando e aperfeiçoando um bocadinho de cada vez e ao longo do tempo, se fores paciente e brando contigo mesmo, evitas muita frustração e vais conseguir muito melhores resultados.

Estuda as tuas reações aos amigos, aos colegas, à tua família, aos desconhecidos e às pessoas que não gostas, observa por outro lado, qual a resposta emocional que recebes deles, sente a diferença e tenta com calma alterar o que tens que alterar.

A dura realidade

A realidade é que muito provavelmente não existe nada de mal ou errado em ti, precisas só de fazer uns ajustes para melhorar a tua pessoa e as tuas relações, e quando conseguires isso, a tua vida começa a mudar sem a ajuda de nenhum Guru.

P.S. E para te ajudar a educar as tuas emoções e a conheceres-te melhor e até a teres o teu momento de meditação enquanto exercitas o corpo, experimenta Chi Kung, é uma prática que não exige esforço nem material especial e vai trazer-te muitos benefícios a todos os níveis da tua vida.

Foto de: @anton_sid via Twenty20